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Tributo de Angola a Manuel Pedro Pacavira

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Buongiorno Angola

Tributo de Angola a Manuel Pedro Pacavira

Numa tarde de sol aberto, com a temperatura acima dos 30 graus, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, foi dar o último adeus àquele que é considerado um dos precursores da luta contra o colonialismo português e que ocupou vários cargos de destaque no Governo.

Antes, no período da manhã, no Palácio dos Congressos, onde Manuel Pedro Pacavira esteve como deputado na comissão de Educação, Cultura e Assuntos Religiosos e Comunicação Social desde 2014, altura em que deixou o cargo de embaixador de Angola na Itália, o Presidente José Eduardo dos Santos, acompanhado da Primeira Dama, Ana Paula dos Santos, rendeu-lhe homenagem. O Presidente da República chegou por volta das 10h00 e dirigiu-se ao caixão. Em sentido, ouviu o Hino Nacional e curvou-se em sinal de respeito profundo. De semblante carregado, cumprimentou a família. O Presidente não falou na cerimônia. No Cemitério do Alto das Cruzes, a grandeza de Pacavira ficou ainda mais evidente. As palavras daqueles que com ele conviveram e trabalharam enalteceram as suas qualidades como pai, conselheiro, amigo e patriota a tempo inteiro, respeitoso e que muito se preocupava com o bem-estar de todos.

O deputado Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, que leu o elogio fúnebre, considerou Manuel Pedro Pacavira um patriota e figura histórica do nacionalismo angolano, que soube defender a independência do país contra o regime colonial português. Num  discurso carregado de emoção, o deputado lembrou o percurso de vida do colega e companheiro de armas, sublinhando a sua missão, inspiração, patriotismo, ideais e entrega às causas do país desde jovem, quando mobilizou estudantes para círculos políticos clandestinos, tornando-se um membro activo do Movimento de Independência Nacional de Angola.

Dino Matrosse disse que o país ainda contava com a experiência de Pacavira e o seu contributo para a consolidação da paz e progresso social, valores que pautaram toda a sua vida. Enquanto militante, recordou o companheiro, Manuel Pedro Pacavira nunca vacilou diante das dificuldades, e a sua entrega ao MPLA e ao país valeram-lhe as medalhas dos 50 anos do MPLA, além da 10 de Dezembro, Deolinda Rodrigues e Hoji ya Henda, distinções atribuídas pelo partido que ajudou a fundar, em 1956, e do qual foi fiel até ao momento da sua morte.

Do estrangeiro também vieram reconhecimentos pelo seu empenho e dedicação. O Fundo das Nações Unidas para a Alimentação distinguiu o seu trabalho, assim como o Estado cubano, que lhe atribuiu a medalha Amizade Angola-Cuba. Louvor também do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Itália, país onde foi embaixador angolano. Pacavira também representou os interesses do Estado angolano em Cuba, Nicarágua e junto da Organização das Nações Unidas. Antes já tinha sido ministro dos Transportes e da Agricultura, além de governador provincial do Cuanza Norte, província onde nasceu em 1939.

Manuel Pedro Pacavira também foi lembrado pela sua veia de escritor. Foi autor de “Gentes do Mato”, “Boneca”, “Nzinga Mbandi”, “Ndalatando em Chamas”, “4 de Fevereiro pelos Próprios” e “JES – Uma Vida em prol da Pátria”, dedicado ao Presidente José Eduardo dos Santos. Mas uma obra ultrapassou fronteiras e é considerada, pela crítica, uma peça preciosa para melhor compreender o período conturbado entre a queda do fascismo em Portugal e a proclamação da Independência de Angola, à meia-noite de 11 de Novembro de 1975:  “Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal – Memórias (1974 – 1976)”.

“’As Memórias’ de Manuel Pedro Pacavira sobre este período da história de Angola, escritas num ritmo empolgante e sublinhado pela oralidade, que é matriz da moderna literatura angolana, revelam factos, situações e protagonistas que ajudam a compreender o que estava em jogo num período em que a ‘Guerra-Fria’ estava no auge em África”, escreve a editora.
No livro, Manuel Pedro Pacavira revela igualmente factos que eram desconhecidos e que vão ajudar a clarificar algumas etapas do processo de descolonização e, sobretudo, a evolução do MPLA desde o momento em que foi dilacerado pelas chamadas “revoltas” internas até à conquista do poder político. Por isso, é também considerado um contributo inestimável à compreensão do processo de descolonização e os acontecimentos políticos na antiga colónia portuguesa, entre 25 de Abril de 1974 e Março de 1976, data em que se retiraram de Angola os invasores sul-africanos.

Em nome dos companheiros, Dino Matrosse afirmou: “Foi-se o combatente que soube fazer a luta em todas as frentes. Ganhou todas, deixou a sua marca e o desafio aos da sua geração  e não só, para que não negligenciem a memória colectiva dos angolanos, para a qual contribuiu com os seus escritos”.

Momentos de emoção

Em nome da família, o sobrinho Manuel Pedro Pacavira Júnior recordou o Tio Paca como um grande incentivador da formação dos jovens. “É um grande exemplo para a família e para todos, uma  perda irreparável”, afirmou, diante do único filho do nacionalista, Watanna Feijó Pacavira, banhado em lágrimas e abraçado à mãe, Branca Feijó Pacavira, negando a partida do seu protector natural. Esse foi um dos momentos mais emocionantes para quem esteve ontem no Alto das Cruzes.

Prática da fé cristã

Manuel Pedro Pacavira também demonstrou a prática da fé cristã. O reverendo do distrito Eclesiástico da Igreja Metodista Unida do Cuanza Norte viajou até Luanda para acompanhar o cristão que um dia, como governador, descobriu que não havia na sua região uma estrutura da igreja Metodista Unida e os crentes faziam as orações ao relento, expostos ao sol e à chuva, e decidiu construir o templo. Joaquim Manuel da Costa afirmou que Manuel Pedro Pacavira, mesmo como governador da província, praticou a fé cristã. Os amigos de infância lembram-no também como amante do desporto, um incentivador de pequenos torneios no bairro onde nasceu e cresceu.

Manuel Pedro Pacavira nasceu no dia no 14 de Outubro de 1939, na fazenda Laluinha, no município do Golungo-Alto. Iniciou os estudos na Escola Evangélica Metodista até à quarta classe. Teve influência religiosa do seu primeiro professor, Francisco Cristiano, que também exercia a função de pastor na Igreja.

O malogrado cresceu no bairro do Matete, município do Golungo-Alto, situado no cimo de uma das elevações da vila, onde esteve situada a Igreja e a escola que frequentou. Muito cedo, o então professor e pastor notou que Manuel Pedro Pacavira já revelava uma capacidade intelectual muito abrangente, transformando-o assim em aluno e professor ao mesmo tempo.
Em 1955, ingressou na vida política no MPLA, para ser preso em 1960. Depois de cumprir 14 anos, foi posto em liberdade por seis meses, para ser novamente detido. Desta vez, foi considerado um elemento altamente perigoso, por defender a democracia e a independência de Angola. Levado para o Tarrafal, Cabo Verde, Manuel Pedro Pacavira passou pela cadeia do Bié e Missombo, no Cuando Cubango. No mesmo ano é libertado na companhia de Agostinho Neto, Francisco António dos Santos, João Júlio Fortunato e Celeste Massango. Manuel Pedro Pacavira desempenhou as funções de director-geral dos Portos e Caminhos-de-Ferro de Angola, em 1976. Em 1977, como coordenador do departamento de reconstrução nacional do MPLA, era ao mesmo tempo ministro dos Transportes.
Até à data da sua morte era, desde 2014, deputado à Assembleia Nacional, integrado na comissão de Educação, Cultura, Assuntos Religiosos e Comunicação Social.

O Presidente da Assembleia Nacional, que acelerou o regresso de Kinshasa, onde esteve a participar na abertura do ano legislativo na qualidade de presidente do Fórum parlamentar dos Grandes Lagos, era, ele também, um homem profundamente consternado. Como disse o deputado Dino Matrosse, o país chorou ontem “o desaparecimento físico de um dos seus melhores filhos”.  

Por Cândido Bessa, Adelina Inácio e Kátia Ramos |
Jornal de Angola

Opinion Maker | Ballerino | Event Organiser. Nato in Angola, abito tra Roma, Vilnius & Luanda. Credo che il pensiero & l'azione facciano la grandezza dell'uomo.

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