Connect with us

Entrevista com D. Tirso Blanco: “O nosso inimigo é o analfabetismo”

Entrevista com D. Tirso Blanco: “O nosso inimigo é o analfabetismo”

Polis 2031

Entrevista com D. Tirso Blanco: “O nosso inimigo é o analfabetismo”

O representante da Igreja Católica no Luena é uma das únicas vozes não-governamentais da província com amplitude nacional. Muito devido à utilização que faz das redes sociais, onde denunciou, por exemplo, as más práticas associadas à produção de madeira na região. Defensor de uma nova visão para o desenvolvimento da província mais extensa do país, acredita que o primeiro objectivo a concretizar deve ser a recuperação das estradas e vias de acesso internas. E que o sector da Educação precisa de novas abordagens com o contributo das novas tecnologias.

Está há cerca de 34 anos no Moxico, é bispo do Luena desde 2007, teve pequenas experiências noutras regiões do país. Quais são as diferenças que encontra entre a altura em que chegou na década de 1980, passando pelo pós-2002 até aos dias de hoje?

Cheguei ao país em 1986. Directamente para a cidade do Luena. Era uma cidade muito marcada pela guerra, militarizada ao extremo (talvez não pudesse ser diferente), porém, notava-se nas pessoas uma certa solidariedade que estamos quase a perder. Havia muito sofrimento mas também vivíamos num ambiente muito rico em solidariedade. Era uma coisa realmente positiva. Em 1991-92 passamos por um período de relativa paz e notamos que as pessoas começaram a ter uma espécie de ânsia de bens económicos. Aquilo que era difícil obter durante a guerra era objecto de uma ambição muito grande. Esta atitude começou em 1991 e foi avançando aos pouquinhos. Depois desse período ainda vivi um tempo em Ndalatando, onde passámos uma guerra muito forte, intensa, praticamente desligados do mundo. Já a minha passagem por Luanda foi diferente. Notava-se mais esta ambição que refiro mas também havia coisas positivas. A motivação que os jovens tinham para estudar naquela altura era impressionante. No Sambizanga, por exemplo. Depois, desde 2008 que estamos aqui no Luena e o que detectamos é uma espécie de lentidão na chegada das consequências da paz. Isto nota-se.

De que forma?
Vamos aos indicadores: mesmo ao nível oficial é reconhecido que apenas 5 por cento das estradas da província foram asfaltadas. Não imaginam o sofrimento que enfrentamos para chegar a um determinado lugar e, portanto, a impossibilidade de levar qualquer outro tipo de desenvolvimento a estas regiões. Estive a visitar aldeias, há cerca de 15 dias atrás, a 60 quilómetros do Luena. Mas como pode viver ali um professor quando a casa é de capim e não tem possibilidades de comunicação de nenhum tipo?

Isto apenas a 60 quilómetros do Luena, porque a realidade nos municípios mais distantes é ainda mais difícil.
Sim, quando vamos para zonas muito distantes encontramos escolas enormes. Mas como vai o professor viver ali? No Alto-Zambeze é um cenário típico (na Calunda e noutras comunas): escolas inacabadas, todo este desafio das estradas. Melhorar as estradas deve ser o primeiro objectivo da governação. Também ainda não foi pensado, na minha opinião pessoal, o modelo de desenvolvimento mais adequado para o Moxico.

Quais deveriam ser as áreas prioritárias a desenvolver na província?
Não há vias de comunicação. E depois também, em certo sentido, digo que o Moxico se transformou num município da Lunda-Sul. Se não fosse o comboio, mas o comboio tem as suas limitações… O comboio chega até onde? À sede municipal. E depois como continua a história? Como dar continuidade à viagem? Mesmo o traçado do comboio obedece a uma necessidade prática que é evitar a construção de pontes: o comboio no Moxico atravessa apenas duas pontes. Entre Léua e Liangongo onde estão as melhores condições? Em Liangongo mas isto significaria desenhar uma curva muito grande para o comboio lá passar. Mesmo assim acredito que o Luacano e o Lago Dilolo precisam de um ramal ferroviário.

É necessária uma melhor interligação entre o comboio e outros meios de transporte, sobretudo rodoviário?
A via mais importante é a rota Luau, Luacano, Léua até Luena e atingir Munhango (Bié). Essa é a estrada mais importante. A segunda mais importante é a via Luena, Lucusse e dali Lumbala Caquengue e Cazombo, por um lado, e Lumbala Nguimbo que vai a Cangamba. Com as estradas em condições poderemos melhorar a educação, a saúde e o desenvolvimento económico, sobretudo agrícola. O Moxico tem um enorme potencial agrícola.

No Luena constata-se facilmente (pela pouca movimentação de pessoas e de carros nas ruas principais, mesmo durante os horários de trabalho) que a actividade económica é muito fraca. É praticamente uma cidade administrativa.
Há vários sectores com potencial mas penso que a agricultura, nas suas diferentes vertentes, aparece como algo bastante importante. A própria reconstrução física da província pode alavancar a construção civil. Também é uma província riquíssima em minérios. Mas os recursos mineiros devem ser explorados sob determinadas condições: a protecção do meio ambiente, o benefício para os locais. Porque eu costumo dizer: “Graças a Deus que ainda não começaram a explorar este tipo de recursos…”.

Devido aos possíveis impactos negativos no meio ambiente, nas condições de trabalho digno e eventuais conflitos de terra?
Basta ver a Lunda-Norte e outros lugares. A exploração mineira deve obedecer a determinadas condições. Por outro lado, são indústrias que nem sempre dão trabalho a muita gente. Podem até trazer prejuízos às comunidades. Neste momento, é preciso preparar bem a actividade mineira no Moxico para que aconteça de uma forma digna. Depois, o segundo desafio está na parte da agricultura e da exploração da madeira.

Porquê?
Neste momento, a agricultura itinerante está também a ser uma causa de desmatação. Precisamos de delimitar bem as áreas agrícolas e aquelas que são para aproveitamento florestal. Ao nível da agricultura temos a mandioca, o milho, mas também o arroz, que seria o mais viável economicamente. O cultivo deveria ser particularmente incentivado mas, actualmente, não temos uma única máquina de descasque de arroz na província. No Alto Zambeze, no Cavungo, as pessoas cultivam arroz.

É uma actividade que já deu resultados no passado. O Moxico tem condições para retomar a produção de arroz em larga escala?
É fácil retomar a actividade. Temos de evitar os latifundiários e apostar na agricultura familiar, com cooperativas que possam ser potenciadas para escoar os produtos e desenvolver outras medidas adequadas. Mas precisamos de descascar o arroz aqui na província. Neste momento isto é feito com o pilão. Penso que seria bom apostar na agricultura familiar sustentável. Há pequenos produtores que têm bastante iniciativa.

E também conhecem a actividade devido à experiência acumulada. Mas precisam de assistência técnica e de ter acesso ao mercado.
Sim. Mas não havendo estradas é impossível. A estrada tem de ser o factor fundamental. Entretanto, temos o comboio, que tem de ser melhor aproveitado. Há vários aspectos a rever. O comboio pode nos ajudar a implementar indústrias porque há isenções fiscais que são bastante atractivas. Mas o comboio não tem uma organização que permita comprar algo no Lobito e armazenar no Luena.

Não há logística funcional
no Luena?
Não, não funciona de facto. Se compro mercadoria no Lobito tenho de encontrar um lugar onde armazená-la no Luena. A um preço elevado. Por isso digo que a construção civil seria muito importante para a província. A agricultura também precisa dos serviços logísticos. E também seria um incentivo à diversificação da produção local. Estamos a receber, até pelo comboio, produtos de outras províncias, sendo que não precisamos. Tudo o que é horticultura vem de outras províncias.


E em relação à produção
de madeira?

Têm de ser observadas determinadas condições, por exemplo, na reposição das árvores abatidas. Depois, precisamos de especialistas em ecologia que olhem para o ecossistema de forma abrangente. Não se pode explorar intensivamente uma única espécie de madeira porque o ecossistema fica quebrado. A exploração deve ser bem regrada. Enquanto província, não beneficiamos nada da madeira. Estragaram os poucos caminhos de terra que havia – hoje em dia estão impraticáveis por causa dos camiões das empresas exploradoras. Não há controlo sobre as quantidades produzidas e a população local só vê passar os camiões. Algumas autoridades tradicionais têm facilitado o trabalho destas pessoas, que se aproveitam até do desconhecimento, do valor do produto e do descontrolo ao nível da fiscalização. Dá a impressão que o Governo não tem controlo real sobre a exploração de madeira.

Em que sentido?
Por exemplo, neste momento está suspensa a transportação de madeira na província. Mas há cerca de um mês fotografei alguns camiões a transportar madeira no Luena. É verdade que nos últimos dias não temos visto novas viaturas. A pergunta é: será que estão a abater em algum lugar da província e depois esperam pela devida autorização? Sabemos que algumas empresas 

enterravam a madeira para parecer algo antigo e, dessa forma, contornar a fiscalização. Em algumas áreas as empresas passam com as suas máquinas pesadas, abrem uma vala que impossibilita a passagem de outras viaturas e depois trabalham à vontade.

Há rumores que indicam que parte desta produção está a sair pela Zâmbia e Namíbia. Tem conhecimento para onde é exportada a madeira do Moxico?
Não sei, não confirmo, nem desminto. Havia uma diversidade de vias de saída: o comboio, a estrada, alguns toros iam escondidos em contentores. Mas sem nenhum benefício para as pessoas.

As empresas que fazem a exploração estão devidamente legalizadas? Quem são estes empresários?
Não tenho conhecimento, só tenho visto documentos assinados por autoridades tradicionais que, às vezes, chegam a atribuir parcelas de dez mil hectares de terra. Isso é totalmente ilegal. No fundo, há uma suspeita de ilegalidade. Por que a transportação é feita de noite? Não tenho elementos para poder investigar. Depois, quando proíbem a exploração num lugar, as empresas aparecem noutro e assim nascem as suspeitas.

Sabemos que parte desta madeira é bastante valiosa, sobretudo a Musivi.
Muito valiosa. Musivi, Girassol. A Musivi é a mais procurada neste momento. Para onde vai, eu não sei, apenas confirmamos que a madeira sai daqui da província. E constato a desmatação. Outro factor importante são as queimadas, que também contribuem para a desmatação. Aqui temos as queimadas tradicionais, diferentes das que se fazem hoje em dia, em que se queima tudo indiscriminadamente. Temos de considerar ainda a mudança climática e o seu impacto nas florestas.

Os impactos sobre o meio-ambiente são mesmo preocupantes?
Aqui na área do Luena e mais a Norte, em direcção a Saurimo, há queimadas mas a mata recupera durante o período chuvoso. Mas há zonas da província onde a mata já não recupera devido aos longos períodos de estiagem. Este ano temos chuvas abundantíssimas, fomos privilegiados nesse sentido, mas nos últimos três ou quatro anos choveu pouco. Sobretudo ao Sul da província, já na zona de transição do deserto do Kalahari. Ali quando se fazem queimadas então é mesmo de vez. Deviam ter visto o “espectáculo” nos meses de Julho-Agosto de 2019, à saída de Cangamba, onde se nota que a mata já não terá capacidade de regeneração. Há uma mudança climática que se relaciona com hábitos tradicionais, que devem ser adaptados. A caça também precisa deste olhar, porque é trágica para a nossa fauna. Gostaria de poder me sentar com quem tem capacidade de decisão para lhes dizer que, na vertente económica, tendo em conta o futuro das populações, será mais valioso conservar a fauna do que abater. Por causa do turismo e do próprio equilíbrio dos ecossistemas.

Outra actividade económica muito divulgada é a apicultura, que também depende em larga medida do meio-ambiente.
Temos apicultores com mais de 500 colmeias. Podemos aproveitar melhor os derivados do mel. Os apicultores serão os primeiros grandes prejudicados pela perda da floresta. Porque as queimadas são inimigas do apicultor. Penso que vale a pena apostar na apicultura. No ano passado, os produtores do Moxico vendiam o balde de 20 litros de mel a 6500 kwanzas, quando comercializado em Luanda a preços muito superiores. Tem de haver um comércio que seja equilibrado.

De que forma são fiscalizados os apicultores?
Eles não precisam de ocupar nada porque as colmeias estão situadas na mata. Não prejudicam ninguém, a mata está ali e apenas colocam lá as colmeias. À medida que a produção vai crescendo também aumentam o número de colmeias.

Já existem algumas iniciativas de embalamento e venda do mel do Moxico, sobretudo em Luanda, onde é possível comprar o produto em grandes lojas. Há potencial para desenvolver este segmento ainda mais, até ao nível da criação de pequenas indústrias?
É uma riqueza muito grande. Em 1979, no Bié, já havia estudos sobre as propriedades terapêuticas do mel. Mas a grande carência é a educação, saúde, desenvolvimento agrícola. Também considero o arroz e o mel tradicionais, porque estamos numa zona muito conhecida. Mesmo a pesca tem de ser feita com uma certa sustentabilidade para evitar o desaparecimento de algumas espécies.

A pesca, devido ao Lago Dilolo, também é um sector que pode ser desenvolvido localmente?
Admiro a sabedoria tradicional ecológica. Há uma tradição no Lago Dilolo que diz que ninguém pode atravessar o lago. É a tradição popular. Mas no fundo isto é uma grande sabedoria, porque fixou a pesca apenas nas bordas e não no centro do lago, o que ajuda a preservar as espécies de peixe.

Antes de avançar com grandes ideias sobre conservação ambiental, seria bom conhecer as práticas locais, sobretudo a forma como foram gerindo os recursos ao longo do tempo. Há aqui uma fonte de sabedoria que tende a ser esquecida.
Por exemplo, se eu proibisse a pesca no Lago Dilolo, a primeira coisa que as pessoas iriam fazer seria tentar contornar esta limitação. Mas uma decisão tradicional tem um impacto tal que ninguém vai violar aquela regra.

“Se a escola não é capaz de dar comida
às crianças elas não vão estudar”

Parte da sua visão sobre o meio rural vem, certamente, das muitas viagens que faz pelo interior da província. Como vê o processo de reconciliação nacional e a convivência entre os diferentes partidos políticos?
É um tema bastante difícil. Acho que precisamos de um projecto de país onde o “outro” tenha espaço. Há um processo de reconciliação ao nível dos partidos, dos grupos étnicos, são elementos muito importantes. Neste momento, a província do Moxico está a precisar de quadros, do contributo de todos, precisamos de ter abertura mental e espiritual. Porque o nosso inimigo é o analfabetismo, a educação sem qualidade, a saúde precária, as estradas em más condições, o fraco desenvolvimento económico. Devemos combater certos males que estão a nos minar. Vamos lá ver: o alcoolismo tem minado a saúde da nossa juventude e não só, dos adultos também. É alarmante a percentagem de seropositivas, sobretudo entre as mulheres grávidas. São combates que temos de aceitar e de chamar e convocar todos para lutar contra estas coisas. Precisamos de ter estas metas. Precisamos de combater a miséria extrema em que vive a maior parte da população rural e periurbana. Temos um projecto muito bonito aqui no Moxico Velho, onde as irmãs têm preparado um mata-bicho reforçado para 300-400 crianças. Depois de pouco tempo a gente percebe a sua vivacidade: como podem ter uma vida normal a comer uma vez por dia? Não é possível.
A falta de alimentos nutritivos pode causar problemas para sempre, sobretudo ao nível do desenvolvimento cognitivo.
E o tempo passa rapidamente, os primeiros cinco anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento pessoal. Nas populações que estão a cerca de 20 quilómetros do Luena, as crianças praticamente não vão à escola. Porque quando chega o tempo de trabalhar nas lavras a família leva as crianças atrás. E se vão deixar as crianças para ir à escola, ficam em que condições? Quem vai cozinhar para estas crianças?

Quais são as alternativas?
Se a escola não é capaz de dar comida às crianças elas não vão estudar. Para modificar os hábitos de vida, estas pessoas não podem comer só uma vez por dia, precisam de uma casa com melhores condições, precisam de uma escola para a vida. Precisam de uma outra visão. Estamos a falar de pessoas que vivem a cerca de 20 quilómetros da cidade. Precisamos de uma espécie de base comum de entendimento entre todos, porque há certas coisas que estão para lá dos partidos. Temos de encontrar pontos comuns e metas comuns a atingir. Isto daria uma linha de continuidade à governação. Também estou a falar dos diversos grupos étnicos: são uma riqueza mas também podem tornar-se uma fonte de tensões.

Neste contexto, como vê a implementação das autarquias, ainda sem data concreta?
É uma mudança necessária porque os investimentos locais têm de ser pensados localmente, têm de partir da visão local. Por que investir nesta estrada e não naquela, por que determinada escola deve ter sete salas de aula e não 14? Tudo isto se percebe melhor a partir de uma perspectiva local. Sem dúvida. As autarquias ajudam nestas questões. Este é o primeiro ponto. Outra das questões que se colocam para a criação das autarquias ao nível do Moxico é que não existe uma capacidade real para que todos os municípios tenham esta oportunidade. Muito bem. Então o que nós propomos é a implementação de autarquias supra-municipais, que reúnam um, dois ou três municípios para que ninguém fique sem a sua autarquia. O terceiro ponto, que também é uma questão que nos preocupa, vai no sentido da implementação das autarquias não potenciar as assimetrias regionais.

Tem receio que as autarquias provoquem mais cisões entre municípios?
Se as autarquias vão depender apenas do seu rendimento próprio, as áreas mais desenvolvidas e que mais beneficiaram durante séculos, vão ser aquelas que vão atingir níveis elevados de desenvolvimento. Deve existir uma ferramenta, a nível nacional, que garanta o desenvolvimento das áreas historicamente menos favorecidas. É isso que deve ser acautelado para não ser motivo de exasperação. Neste momento, as assimetrias estão a crescer. Basta analisar o desenvolvimento a partir de Luanda até ao interior do país. Mesmo ao nível da internet, por exemplo, o Moxico é uma área seca porque os custos das telecomunicações são exorbitantes.

É preciso ter licença de alguém
para noticiar certos assuntos”

As autarquias também vão provocar novas dinâmicas no que diz respeito à produção de informação. A Rádio Ecclésia está presente no Luena, apesar de ter estado fora do ar durante algum tempo, de que forma analisa o desempenho da comunicação social na província
No que diz respeito à Rádio Ecclésia, a emissão do Luena foi uma das primeiras a funcionar. Penso que a rádio tem um papel bastante positivo. Recentemente, tivemos uma avaria provocada por uma sobrecarga de energia muito significativa e ainda não recuperámos a 100 por cento. Dada a extensão do Moxico, encontramos problemas, porque não podemos dizer que o Moxico tenha acesso à Ecclésia. Só emitimos para o Luena e, com um pouquinho de sorte, conseguimos atingir Camanongue. O cenário é diferente de outras províncias, onde o sinal emitido a partir da sede provincial consegue atingir alguns municípios. Seria muito bom se o sinal chegasse aos municípios do Moxico. Estamos agora nessa luta, porque os municípios também precisam da rádio, há muitos problemas sociais que podem ser resolvidos se os mostrarmos. A comunicação social tem um papel muito importante. É um papel que tem de ser desempenhado com respeito mas temos de mostrar os problemas. Não há outra forma. E quando isto não é feito é ruim, traz consequências humanas que não são boas. Devemos mostrar aquilo que pode ser modificado. Dou como exemplo a fome no Sul da província. Penso que foi positivo termos divulgado o problema. A fome requer uma resposta constante até que a próxima colheita permita a sobrevivência das pessoas. Temos situações de abandono de populações, há zonas onde o Governo não está presente, então devemos mostrar a realidade. Tenho a impressão de que ainda não há abertura suficiente, que é preciso ter licença de alguém para noticiar certos assuntos. Isto é uma limitação que não ajuda o desenvolvimento da província. E pode criar reacções negativas da parte de alguns agentes sociais.

Que tipo de reacções?
Se eu tenho uma situação, vejo os caminhos de solução e isto não é acolhido… Penso que ainda temos de crescer muito. A comunicação social tem um papel muito importante mas também penso que pode estar limitada. A diversidade de fontes de informação e de meios de comunicação ajuda a todos. A presença da Ecclésia ajuda os organismos públicos oficiais, assim como o acesso à internet e às redes sociais. Hoje em dia qualquer um pode divulgar informações. Os órgãos de comunicação estabelecidos podem dar uma garantia de autenticidade porque é uma questão ética do jornalismo profissional. Mas devemos ter mais coragem para noticiar, mostrar e também sugerir os caminhos para a solução dos problemas. Especialmente para a juventude, que agora tem muito mais coragem e dinamismo.

E também parece ávida de opinião, participação e conhecimento histórico.
Sim, os jovens têm uma capacidade incrível. Por exemplo, os processos da diocese do Luena são geridos por uma equipa de oito pessoas. O mais velho tem 38 anos. Eles são o motor da diocese. Os jovens precisam de espaço e de oportunidades para mostrarem o seu valor. Temos de ser muito abertos para dar oportunidades à juventude. Para crescer também precisamos de errar, evidentemente. Mesmo nós como mais velhos não vamos deixar o melhor país do mundo.

Miguel Gomes
Jornal de Angola

—!!!—

MUNDO NOVO | Manos, este e vários outros artigos fazem parte da minha visão da vida, visão da sociedade, visão da cultura e da política. Os artigos do Mundo Novo provêm de várias fontes e são partilhados aqui nas datas oficiais de publicação.

Continue Reading

Opinion Maker | Ballerino | Event Organiser. Nato in Angola, abito tra Roma, Vilnius & Luanda. Credo che il pensiero & l'azione facciano la grandezza dell'uomo.

Click to comment

Leave a Reply

Il tuo indirizzo email non sarà pubblicato. I campi obbligatori sono contrassegnati *

More in Polis 2031

Advertisement

Consigliati

Advertisement
To Top